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outubro 23, 2004

Um afortunado Lisboeta

Num dia comum, saído do emprego, encontrei por mero acaso a casa onde passei a viver. Era a casa dos meus sonhos, velha, generosa e rústica, cheia do rio Tejo, dos tons da tarde de Lisboa e do ranger das gruas de que se vislumbra ainda o pescoço brioso lá para os lados do porto. Mas a sua maior particularidade era o facto de distar exactamente um quilómetro do meu emprego.

Porventura nem conseguirão conceber o que é sair de casa, sem carteira, apenas as chaves tilintando distraidamente no bolso, as mãos baloiçando desajeitadas de nada se verem incumbidas, e partir, caminhando apenas. Nem sequer me ocorre já o habitual e hesitante pensamento do “será que me esqueci de alguma coisa?” antes de fechar completamente a porta. Não, saio apenas caminhando.

Depois é ver-me viciado pela trilha de todos os dias. Desço a rua ladeando os muros da manutenção militar. Vejo-lhe por detrás das janelas reticuladas o rio da manhã, e pressinto os barulhos mecânicos dos afazeres no porto. Passo ao lado dos bombeiros, e por lá os encontro sempre, mitigando o ócio, sentados no banquinho vermelho que colocam ao comprido no passeio. Logo depois da primeira esquina compro o jornal e as cigarrilhas na tabacaria do presidente dos bombeiros. Além disso, é homem que também se desenrasca no arranjo dos relógios do bairro. Enfadado, ostentando com orgulho a sua luneta, lá me vai permitindo a interrupção em troca de coisas menores.

E a meio caminho me fico um pouco, bebendo a bica no café do sr. João, mesmo do outro lado da rua, onde invariavelmente encontro a Srª Doutora da farmácia do lado – “então continua sem fumar ? ajudaram as pastilhas?” – enfim, de pouco custa esconder a mão, e o rubor.

É por ali que acordo completamente, e por ali reinício a jornada. Passo agora em frente ao talho e às duas mercearias que concorrem ao fim do dia para guardarem em papel de embrulho e laçadas antigas as coisas que esqueci de comprar ontem. E também ambas disputam a idade e a mesma traça - as portas forradas de fruta e ao fundo, na sombra, os tampos de mármore manchados do roxo acre dos copos de três por ali pousados. Sigo então pelo jardim do Beato e deixo-me passar distraído por baixo daquelas 3 enormes acácias. Pouco depois, cheio de Lisboa, entro a cantarolar pelo trabalho adentro.

Todos os dias é assim que viajo. O meu ir e vir tornou-se de repente numa das melhores coisas do dia. Aos outros vejo-os cedendo em horas de trabalho a fuga ao trânsito do fim do dia. Eles ficando-se, eu desenhando os meus passos desde o convento do grilo onde deixo a minha casa de manhã, até pouco depois do convento do beato de onde a ela retorno. Olho-os chegando e partindo, trazendo consigo o cheiro a escape e o barulho das arrelias, e é aí que ganho consciência: sou seguramente um afortunado Lisboeta.

Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 23, 2004 03:42 AM

Comentários

É ainda há gente c sorte...

Publicado por: AlguémAmargo em outubro 24, 2004 01:44 PM