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outubro 18, 2004
Os meu mortos
Houve alguns dos meus mortos que se foram esfumando, e transformaram-se aos poucos numa nostálgica e longínqua recordação, cada vez mais deturpada com partes de mim. Eu tentando-os recuperar com o que eles deveriam ser mas já não eram.
Mas houve outros em que as memórias não se desvaneceram, não eram etéreas e solutas. Mais do que as suas memórias, foram eles que me entranharam. Esta dor brutal, gritando uma explicação que nunca virá, era afinal um processo de regeneração, enquanto eles passavam para dentro de mim. É aí, dentro de nós, não pelas recordações que deles guardamos, mas pelo que passamos despercebidamente a ser deles, que as almas daqueles que nos tocam verdadeiramente na vida, passam a viver.
Esses são os meus mortos. E é assim que agora nós vamos caminhando pelo mundo. Um dia virá que passaremos este testemunho a outros. Tudo o que vamos fazendo, e deixando, afinal é apenas isso, ir ajeitando o “lugar” onde mais tarde continuaremos a viver.
Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 18, 2004 12:09 PM
Comentários
Meus mortos são assim: mortos de todos os tipos que brincam comigo com a crueldade sorridente das crianças. Com o direito adquirido dos que, tendo deixado de existir, cobram caro por terem se mantido presas da memória. Com a certeza de que o silêncio lhes dá impunidade.
Publicado por: Lílian em outubro 20, 2004 01:59 AM
Os meus parece-me serem parecidos.
Publicado por: a. em outubro 21, 2004 10:21 AM
Lindo, muito lindo!
Este texto diz-me muito, como diz muito a todos, pois a nossa condição humana é inexorávelmente finita. Se não a sentimos por nós mesmos, sentimo-la pelos outros. os que vão mesmo passando a viver para sempe dentro de nós. Aí sim há eternidade. Mas até a eternidade tem limites!
Parabéns pelo blog.
Publicado por: madalena em outubro 27, 2004 08:06 AM