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outubro 13, 2004
Arrumando papéis ...
Mudei de gabinete. Aproximei-me do Sol. Como perdi o hábito de o arrumar antes das férias, deparo comigo organizando papéis. Um sincero esforço de renovação, até porque nesta nova versão do gabinete já nem tão pouco eles cabem. A alguns tiro-lhes o pó de cima, a outros mudo-os de sítio por mais uns anos, a outros ainda assassino-os com impressionante facilidade no caixote do lixo.
Fico impressionado com tanto papel coleccionado. É ver quantos cadáveres de papeis bóiam à tona do cesto de papeis, quantas ideias voluntariosas de outrora formam pregas nas quinas do caixote, e quantos projectos se espraiam em folhas amarrotadas pelo chão ! Todos eles foram importantes na altura, - todos metodicamente etiquetados, para o dia em que pudessem ser precisos - e assim foram guardados. Agora, já nada me dizem. À medida que os destapo da sombra destes anos vou-os vendo riscados de letras e cruzados de ideias como no dia em que nasceram. Imperecíveis, despropositados e sinceros, nem os reconheço. Certamente sou eu que devo ter mudado.
Enfim, todas as coisas têm o seu próprio sentido de existência. Os papéis que vamos juntando, provavelmente servirão como um sombrio arquivo daquilo que já fomos. Talvez assim se justifique que os vamos coleccionando sem saber verdadeiramente porquê.
Revejo-me em cada um deles a interrogar-me sobre o que escrevia, e porque o fazia. Esta mania de deixar que a escrita diga o que eu normalmente calo é inusitada, injustificável e estranha-me.
Mais uma resma na mão enquanto procuro um novo lugar ou destino a dar-lhe a tanto bafio. Devo ser um coleccionista de coisas que não são precisas. Devo ser depois um rasgador de coisas com valor. As mesmas coisas. Fica o remorso e a displicência com que as rasgo agora. Será esta uma forma de se ser sentimental? Este sombrio vício de guardar papeis preciosos que um dia distante, incautamente, rasgarei e amontoarei sem dó num qualquer caixote de lixo, aliviando-os da eterna clausura a que os devotei.
Continuo a reflectir sobre este hábito burocrata. De facto, nós quando crescemos vamos juntando novas memórias, e para isso vamos involuntariamente apagando outras. Deve ser por isso que nunca seremos a soma de tudo o que já fomos no passado. Mas com os papéis não se passa o mesmo, eles são bem menos voláteis que nós. O que são perdura e é acumulável. Tudo o que lemos, tudo o que escrevemos, pode ser sobreposto folha após folha, resma sobre resma. O nosso passado pode em grande parte fazer-se lido dos papéis que escrevemos e guardamos, pode até fingir-se mensurável. Curiosamente o mesmo não acontece connosco, seus autores. Quando os arrumamos, aos papéis, em gavetas, caixotes e prateleiras, com desproporcionado zelo, temos de alguma forma consciência disso. Assim como, quando anos depois, como hoje o faço, os destruímos sem qualquer pejo, o fazemos um pouco acanhadamente, de sabermos inutilizar tão definitivamente algo do que já fomos.
A dois metros de mim, um electricista e o seu canino mestre de obras gritam opiniões sobre o quadro de electricidade; à direita está um possível ucraniano pintando a parede com eficiência desusada por estes sítios, enquanto um homem novo já esperando a reforma, a seu lado, o olha com ar vazado e tão despojado de interesse que sou levado a concluir que seja o seu chefe. Em redor de cada um destes ruidosos obreiros conto dois escadotes, várias trinchas, os baldes de tinta, pontas cortadas de cabos eléctricos e toda uma panóplia de dossiers meus, que outrora tiveram prateleiras que os acomodassem. E pó, muito pó decadente. É determinante não trabalhar, estas condições. Continuo por isso nas arrumações...
Uns papeis mudo-os de dossier até que daqui a 5 anos, um crivo mais rigoroso os meta definitivamente para o caixote do lixo; outros passo-os a colaboradores meus, julgando que estes são apenas cópias imprecisas e atrasadas no tempo, do que eu já fui; outros, talvez os mais importantes por isso, não lhes encontro razão de terem sido guardados e rasgo-os. Estes últimos, deixam-me uma enorme vontade de os querer levar comigo, para onde não sei? como não sei? acho que esperaria que eles entrassem cá dentro e ficassem fazendo parte de uma espécie de “folheto” de mim mesmo. Mas, sei lá eu fazer isso!
Feliz agora, eu. É meio da tarde e eles começam a arrumar as coisas que levaram a outra metade do dia a desarrumar. E eu dei uso a um catálogo de uma marca alemã que há 10 anos tive o trabalho de recolher, guardar, não esquecer no hotel, transportar no avião, trazer para o gabinete, e arrumar num dossier. Que bom é poder dar sentido ás coisas que no passado guardámos para desfrutar no futuro. Estou francamente satisfeito. Hoje, quando rasguei todas estas resmas do que já fui, e de tudo quanto guardei, consegui dar sentido a pelo menos 5 linhas de um catálogo de automóveis.
Apesar do cheiro a tinta, apesar de ter amontoado um rol de coisas que devia ter feito hoje, satisfaz-me a sensação de que um canto deste gabinete ficou agora mais arrumado. Amanhã vou poder trabalhar melhor …
Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 13, 2004 05:59 PM