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outubro 31, 2004

A “bilharada”

Esta não resisto a contar, mesmo sendo “puxadinha”. E o facto de ainda não saber quem escreve este Blog, ou o que quero fazer com ele, deixa-me mais descomprometido para a contar. Embora se tenha passado há mais de 4 anos, revisitou-me agora, e desta vez quero guardá-la.

Todas as semanas lá vamos ao bilhar. Um serão calmo, relaxante, e que acaba quase sempre pela meia-noite. Tudo muito conveniente para quem tem de trabalhar no dia seguinte.

Take 1

Mas às vezes não. A geometria do bilhar recomenda-nos concentração, o cigarro vem logo a seguir – ou para quem deixou de fumar, a cigarrilha. Juntem-lhe um café e naturalmente, um digestivo, normalmente um wiskie. Por vezes são dois. Quanto baste e convenha. Naquela vez terão sido 3 ou 4, não dei por isso. Quando assim é, acabamos a juntar mais um copo, no bar mesmo ao lado - simpático, com música ao vivo. Por lá emparelhamos ao balcão para negociar mais uma hora. Conversa de fim da noite. Quase sempre ficamos por aí. Á uma da manhã estamos em casa, controlando o limiar do estado razoável para quem acordará cedo no dia seguinte.

Take 2

Mas às vezes não. A música estava boa, o ambiente agradável, a conversa corria, já sem precisar de nós. Fomo-nos com o bar trancado, aí pelas duas da manhã. Ou melhor, ficámo-nos; à porta parados, continuando a conversa, a disposição, e quase jurando que a comentada cantora ainda por ali estava a bramir-se. Bastou vir a primeira proposta: “- Olha lá, não te apetece dar mais umas tacadas? Snocker Club !” – sem sequer esperar resposta – “Ainda está aberto, creio.”
Nesta altura nem me ficaria bem desconvencê-lo. A certeza de que aquilo não demoraria a fechar, dava-me o conforto que precisava naquela posição. Este programa levava-me a casa no seu fim e por isso parecia-me suficientemente autocontrolado. Seria no máximo mais uma hora e depois cama, como seria prudente e natural.

Take 3

Mas às vezes não.‘Tava-se bem. Além disso o PB queria comprar o taco mais artilhado que lá estava, e havia que experimentá-lo bem. Uma coisa linda, de Grafite, com o punho cravado de cornucópias, e com a etiqueta menos generosa da vitrine. Mas não tinha massa, não era equilibrado, e a jogar era uma merda. Fartei-me de lho dizer, mas ele olhava para o taco, fazendo mira com os olhos já encaramelados e dizia: “- Mas é lindo!”. Ainda hoje se mostra, resplandencente, lá pela casa onde jogamos o bilhar, o mais bonito de todos, fútil e preterido, coisa luxuosa que apenas serve para nos lembrar aquela noite. Eu afinal … afinal eram igual número de imperiais, depois wiskies e finalmente aguardentes. Que lhe poderia dizer? Aliás, já estávamos na fase em que nada do que se diga é muito relevante, quando muito servirá apenas para iniciar uma série de risadas ébrias.

Take 4

4 da manhã, de novo na rua, o taco de bilhar orgulhosamente oscilando na mão dele. Com mais uma aguardentes em cima o meu convencimento de que estava tudo controlado tinha-se agravado. O PB mostrava outra disposição e, convenhamos, outro equilíbrio, bem mais oscilante que o meu. Podia não saber já exactamente onde estava, mas sabia muito bem ao que vinha.
“-‘Bora aí a um bar novo que abriu ali ao pé do rio.”
“- Epá não. Até aqui ainda vou, tudo controlado. Amanhã reunião a começar, não dá para grandes falhas (…) Humm… mas como se chama essa coisa?”
“- ‘Limonada Club’. Fui lá no outro dia, é giro. Eu faço questão de pagar pá”
– nestas alturas o PB é completamente emocional; há que estar preparado para as cargas de 90kg com que nos distingue.
“- Na, na, na … amanhã tenho de acordar cedo! (…) No máximo só uma hora, entãooo.”
Como sempre acontece nessas situações, transportámo-nos nas mãos dos santos. Só isso poderá explicar porque nunca nos lembramos dos trajectos nestas ocasiões. E só isso poderá explicar como é que tínhamos conseguido chegar ali, conduzidos pelo PB, o carro deixado com uma fresta para respirar dos vapores etílicos. “São 10 Euros com bebida incluída, claro”. O PB com gestos enunciáveis, de carteira na mão, fazendo questão em cumprir o que prometera. Eu, já naufragado de encontro à porta de entrada, contradizendo-o, contradizendo-me “- Recuso pagar à entrada!”. Mas por essa altura já ele se tinha ido para dentro, com a minha entrada na mão, comigo atrás

Take 5

Às 5.30h da manhã lá estava eu a escarafunchar a fechadura do prédio, semidescaído nos degraus, mas com aquele ar afidalgado de quem se compõe da intoxicação para entrar em casa. Aparentemente a minha noite tinha acabado. Lembro-me de ainda ter fixado o despertador para as 8.30h, instintivamente. E lembro-me que ainda me preocupei, submergindo à bebedeira: “A ver se o gajo chega bem a casa. Com a bezana q’estamos!!?”. Depois o mundo foi engolido por um negro voraz, absolutamente profundo.

Take 6,7,8 ... apoteose final

Encontrei-o no ressacado fim da tarde desse dia. Eu lamentando-me de ainda me ter forçado a ir trabalhar. Ele lamentando-se de o não ter feito. Os dois de caras vincadas e olhos escondidos do sol. Resmungos á beira da mesa do café. Foi aí que fiquei a saber que afinal a noite ainda não tinha acabado, pelo menos para ele. Ouvi-o estupefacto primeiro, depois ainda mais estupefacto, por razões que já compreenderão.
“- Mas tu sabes o que me aconteceu ontem, depois de te deixar em casa?”– e a partir daí começou a revelar-me, passo-a-passo, o que se desenrolou depois de eu ter desmaiado na cama.
“- Não me apetecia ir logo para casa, e ainda fui ao “Lix”.Beber o último copo, percebes?”. Este homem é o meu herói ! “- ´Tava-se porreiro e acabei por encontrar uma amiga minha, que já não via há muitos anos e…”
“- Quer dizer que chegaste lá pelas 7 da manhã não??”– onde é que estes tipos vão buscar forças.
“- Nada disso! Oh pá … depois fui levar essa minha amiga a casa.” Eu já começava a desenrolar o resto da coisa: “- Ah bom. Não chegaste sequer a tua casa afinal”
“- Espera meu! Acabámos por ficar ali no carro, por baixo do prédio dela e conversa puxa conversa acabámos aos trambulhões lá dentro.”
“- Ali no carro? Este gajooo …”
“- Oh pá, nem me digas nada. A meio da coisa ouço uns dedos batucar no vidro. Eram os Xotas." – Nesta altura eu já respingava café misturado com risos. No estado em que o via contar-me a cena, era sem dúvida pouco próprio, mas era absolutamente incontrolável. "- Acabámos na esquadra numa cena indescritível. Os gajos julgavam que ela estava a render. O resto podes calcular tu.” – tentava imaginar a cena. Depois da noite com que o tinha deixado, acrescentando-lhe os copos seguintes, adiantando o relógio em mais algumas horas, deve ter sido de facto coisa dura. Mas hilariante. “- Aquelas bestas !!! Estive lá 3 horas. Ameacei que a minha irmã era advogada, mas de nada me serviu. Formalidades e prepotências.”

Em resumo, tinha chegado a casa pelas 11h - faço ideia como. E contava-me ele, cada vez mais sorumbático, o fogo-de-artifício com que se deu o desfecho dessa noite. Parece que quando chegou a casa estava louco por ir à casa-de-banho …
“- Agora vê tu a minha noite !! Vê bem. Chego à sanita, puxo o fecho para baixo, coisa para fora, pronto para derramar dois litros de álcool …”
“- Pois, não há melhor que essa mijadela”– dizia solidário, perante uma conversa que em meu entender se detalhava agora desnecessariamente.
“- Não estás a ver. Eu a sentir aquilo a vir, tipo tromba d’agua. Nem conseguia olhar com o sol a bater-me nas fronhas, a querer despachar o mijo para ir cair na cama…”- preparem-se para a apoteose final “- E aquilo a vir a vir. Depois cada vez mais quente, mais quente e … Splasssshhhhhh … a casa-de-banho toda inundada de mijo Pá!! Vê lá tu que nem tinha reparado … eu … tinha aquela merda ainda posta!!”

E agora digam-me, acham que eu podia inventar esta história ???

Publicado por Eufigénio Lagoa às outubro 31, 2004 12:20 AM

Comentários

:))) Só consigo rir.:)))
Um bji da Yurei-san

Publicado por: Yurei-san em outubro 31, 2004 01:08 PM

Nem sabe Yurei, o que eu também me ri, e as vezes que ri, primeiro a revive-la, depois a escreve-la, e depois a rele-la. Só por isso valeu a imprudência de a colocar aqui.
Beijo

Publicado por: Eufigénio em outubro 31, 2004 03:21 PM

Hilariante!!!
:D

Saudações

Publicado por: Carriço em novembro 1, 2004 12:36 PM

AHAHAHAHAHAHAHAH! :DDDD

(impõe-se uma leitura atenta deste blog desde o princípio, que andei a perder umas coisas porreiras...)

Publicado por: catarina em janeiro 21, 2005 12:56 PM