outubro 31, 2004
Bolas, descobri agora que vou anoitecer mais cedo.
Que mania esta de brincarem com o tempo !!
Mas quem é afinal o cretino que me proibiu agora de ver os raios de sol a brincar no meu pátio, quando chego ao fim da tarde?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:53 PM | Comentários (7)
A “bilharada”
Esta não resisto a contar, mesmo sendo “puxadinha”. E o facto de ainda não saber quem escreve este Blog, ou o que quero fazer com ele, deixa-me mais descomprometido para a contar. Embora se tenha passado há mais de 4 anos, revisitou-me agora, e desta vez quero guardá-la.
Todas as semanas lá vamos ao bilhar. Um serão calmo, relaxante, e que acaba quase sempre pela meia-noite. Tudo muito conveniente para quem tem de trabalhar no dia seguinte.
Take 1
Mas às vezes não. A geometria do bilhar recomenda-nos concentração, o cigarro vem logo a seguir – ou para quem deixou de fumar, a cigarrilha. Juntem-lhe um café e naturalmente, um digestivo, normalmente um wiskie. Por vezes são dois. Quanto baste e convenha. Naquela vez terão sido 3 ou 4, não dei por isso. Quando assim é, acabamos a juntar mais um copo, no bar mesmo ao lado - simpático, com música ao vivo. Por lá emparelhamos ao balcão para negociar mais uma hora. Conversa de fim da noite. Quase sempre ficamos por aí. Á uma da manhã estamos em casa, controlando o limiar do estado razoável para quem acordará cedo no dia seguinte.
Take 2
Mas às vezes não. A música estava boa, o ambiente agradável, a conversa corria, já sem precisar de nós. Fomo-nos com o bar trancado, aí pelas duas da manhã. Ou melhor, ficámo-nos; à porta parados, continuando a conversa, a disposição, e quase jurando que a comentada cantora ainda por ali estava a bramir-se. Bastou vir a primeira proposta: “- Olha lá, não te apetece dar mais umas tacadas? Snocker Club !” – sem sequer esperar resposta – “Ainda está aberto, creio.”
Nesta altura nem me ficaria bem desconvencê-lo. A certeza de que aquilo não demoraria a fechar, dava-me o conforto que precisava naquela posição. Este programa levava-me a casa no seu fim e por isso parecia-me suficientemente autocontrolado. Seria no máximo mais uma hora e depois cama, como seria prudente e natural.
Take 3
Mas às vezes não.‘Tava-se bem. Além disso o PB queria comprar o taco mais artilhado que lá estava, e havia que experimentá-lo bem. Uma coisa linda, de Grafite, com o punho cravado de cornucópias, e com a etiqueta menos generosa da vitrine. Mas não tinha massa, não era equilibrado, e a jogar era uma merda. Fartei-me de lho dizer, mas ele olhava para o taco, fazendo mira com os olhos já encaramelados e dizia: “- Mas é lindo!”. Ainda hoje se mostra, resplandencente, lá pela casa onde jogamos o bilhar, o mais bonito de todos, fútil e preterido, coisa luxuosa que apenas serve para nos lembrar aquela noite. Eu afinal … afinal eram igual número de imperiais, depois wiskies e finalmente aguardentes. Que lhe poderia dizer? Aliás, já estávamos na fase em que nada do que se diga é muito relevante, quando muito servirá apenas para iniciar uma série de risadas ébrias.
Take 4
4 da manhã, de novo na rua, o taco de bilhar orgulhosamente oscilando na mão dele. Com mais uma aguardentes em cima o meu convencimento de que estava tudo controlado tinha-se agravado. O PB mostrava outra disposição e, convenhamos, outro equilíbrio, bem mais oscilante que o meu. Podia não saber já exactamente onde estava, mas sabia muito bem ao que vinha.
“-‘Bora aí a um bar novo que abriu ali ao pé do rio.”
“- Epá não. Até aqui ainda vou, tudo controlado. Amanhã reunião a começar, não dá para grandes falhas (…) Humm… mas como se chama essa coisa?”
“- ‘Limonada Club’. Fui lá no outro dia, é giro. Eu faço questão de pagar pá” – nestas alturas o PB é completamente emocional; há que estar preparado para as cargas de 90kg com que nos distingue.
“- Na, na, na … amanhã tenho de acordar cedo! (…) No máximo só uma hora, entãooo.”
Como sempre acontece nessas situações, transportámo-nos nas mãos dos santos. Só isso poderá explicar porque nunca nos lembramos dos trajectos nestas ocasiões. E só isso poderá explicar como é que tínhamos conseguido chegar ali, conduzidos pelo PB, o carro deixado com uma fresta para respirar dos vapores etílicos. “São 10 Euros com bebida incluída, claro”. O PB com gestos enunciáveis, de carteira na mão, fazendo questão em cumprir o que prometera. Eu, já naufragado de encontro à porta de entrada, contradizendo-o, contradizendo-me “- Recuso pagar à entrada!”. Mas por essa altura já ele se tinha ido para dentro, com a minha entrada na mão, comigo atrás
Take 5
Às 5.30h da manhã lá estava eu a escarafunchar a fechadura do prédio, semidescaído nos degraus, mas com aquele ar afidalgado de quem se compõe da intoxicação para entrar em casa. Aparentemente a minha noite tinha acabado. Lembro-me de ainda ter fixado o despertador para as 8.30h, instintivamente. E lembro-me que ainda me preocupei, submergindo à bebedeira: “A ver se o gajo chega bem a casa. Com a bezana q’estamos!!?”. Depois o mundo foi engolido por um negro voraz, absolutamente profundo.
Take 6,7,8 ... apoteose final
Encontrei-o no ressacado fim da tarde desse dia. Eu lamentando-me de ainda me ter forçado a ir trabalhar. Ele lamentando-se de o não ter feito. Os dois de caras vincadas e olhos escondidos do sol. Resmungos á beira da mesa do café. Foi aí que fiquei a saber que afinal a noite ainda não tinha acabado, pelo menos para ele. Ouvi-o estupefacto primeiro, depois ainda mais estupefacto, por razões que já compreenderão.
“- Mas tu sabes o que me aconteceu ontem, depois de te deixar em casa?”– e a partir daí começou a revelar-me, passo-a-passo, o que se desenrolou depois de eu ter desmaiado na cama.
“- Não me apetecia ir logo para casa, e ainda fui ao “Lix”.Beber o último copo, percebes?”. Este homem é o meu herói ! “- ´Tava-se porreiro e acabei por encontrar uma amiga minha, que já não via há muitos anos e…”
“- Quer dizer que chegaste lá pelas 7 da manhã não??”– onde é que estes tipos vão buscar forças.
“- Nada disso! Oh pá … depois fui levar essa minha amiga a casa.” Eu já começava a desenrolar o resto da coisa: “- Ah bom. Não chegaste sequer a tua casa afinal”
“- Espera meu! Acabámos por ficar ali no carro, por baixo do prédio dela e conversa puxa conversa acabámos aos trambulhões lá dentro.”
“- Ali no carro? Este gajooo …”
“- Oh pá, nem me digas nada. A meio da coisa ouço uns dedos batucar no vidro. Eram os Xotas." – Nesta altura eu já respingava café misturado com risos. No estado em que o via contar-me a cena, era sem dúvida pouco próprio, mas era absolutamente incontrolável. "- Acabámos na esquadra numa cena indescritível. Os gajos julgavam que ela estava a render. O resto podes calcular tu.” – tentava imaginar a cena. Depois da noite com que o tinha deixado, acrescentando-lhe os copos seguintes, adiantando o relógio em mais algumas horas, deve ter sido de facto coisa dura. Mas hilariante. “- Aquelas bestas !!! Estive lá 3 horas. Ameacei que a minha irmã era advogada, mas de nada me serviu. Formalidades e prepotências.”
Em resumo, tinha chegado a casa pelas 11h - faço ideia como. E contava-me ele, cada vez mais sorumbático, o fogo-de-artifício com que se deu o desfecho dessa noite. Parece que quando chegou a casa estava louco por ir à casa-de-banho …
“- Agora vê tu a minha noite !! Vê bem. Chego à sanita, puxo o fecho para baixo, coisa para fora, pronto para derramar dois litros de álcool …”
“- Pois, não há melhor que essa mijadela”– dizia solidário, perante uma conversa que em meu entender se detalhava agora desnecessariamente.
“- Não estás a ver. Eu a sentir aquilo a vir, tipo tromba d’agua. Nem conseguia olhar com o sol a bater-me nas fronhas, a querer despachar o mijo para ir cair na cama…”- preparem-se para a apoteose final “- E aquilo a vir a vir. Depois cada vez mais quente, mais quente e … Splasssshhhhhh … a casa-de-banho toda inundada de mijo Pá!! Vê lá tu que nem tinha reparado … eu … tinha aquela merda ainda posta!!”
…
E agora digam-me, acham que eu podia inventar esta história ???
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:20 AM | Comentários (4)
outubro 30, 2004
Sobre os Blogs
Coisas que todos pensamos, mas só alguns o sabem dizer assim.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 09:22 PM | Comentários (1)
Humm …
Em conversa de serão, eu entusiasmado a explicar esta minha nova experiência:
- Mas diz-me, para além do ego, que outras motivações há por detrás do blog ?
Eu naturalmente respondi:
- …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:01 PM | Comentários (3)
O(s) meu(s) Link(s)
Hoje inaugurei mais uma funcionalidade (começo a ficar um expert). É suposto aí estarem presentes diversos links para outros blogs. Eu apenas pus um: O Maschamba.
Foi ele quem me trouxe a este blogomundo. Foi ele quem me viciou aqui. É a ele que todos os dias acorro antes de tudo o mais, para acompanhar o cafezinho do despertar.
Acintosamente, não poderia deixar de o colocar em primeiro lugar, e deixá-lo lá sozinho, como que fazendo o tempo a marcar a distinção. Depois certamente outros virão. Mas compreenderão que neste momento, escalonando “as minhas voltas”, e embora com modesto significado, não poderia deixar de o colocar lá, durante uns momentos, apenas a ele.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:55 PM | Comentários (5)
Um G´anda trapalhão
(para ler em voz alta e enteramelada)
- Oh Pai, o Valentino Rossi não era aquele jogador do Milão ?
- Não filho. É um corredor de motos. É o Shumacker das motos.
- Nãooo, aquele holandês que ...
- O Van Nistelroy ????
- Simmm. Esse !!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:11 AM
outubro 29, 2004
As grandes amizades começam assim:

Publicado por Eufigénio Lagoa às 04:02 PM | Comentários (2)
Halloween … mas que merda é esta ?!
Pergunto-me se foi o grande comércio quem teve esta abjecta ideia, e tudo me leva a crer que sim:
"A animação é tanta que dia 31 de outubro é feriado nos Estados Unidos e o comércio registra alto volume de vendas, superior somente ao da época de Natal. De acordo com estatísticas, no dia 31 os mais empolgados com as compras gastam um total de U$S 2,5 milhões em fantasias, presentes e acessórios."
É lamentável que se manipule o fértil mas tão permeável mundo de fantasia das crianças, com intuitos meramente comerciais.
Por outro lado, interrogo-me se não terá sido uma consciente e articulada estratégia do ensino de inglês em Portugal, sob a aliada cobertura dos programas curriculares do ME. A “americanização” de novo a reconstruir-se pelo mundo fora. As culturas “fortes” sonegam as fracas …..grrrrrr. Ter de levar com os resquícios da política internacional americana, ou gorgolejar uma coca-cola é uma fatalidade, agora o que acho afrontoso é que no quadro do nosso beneplácito ensino público se institucionalize um acontecimento que nada tem a ver connosco, e que já tão pouco lhe falta para se propor como um feriado nacional.
É desonesto pretender marcar de forma indelével nas memórias dos nossos filhos, no imaginário lusitano de amanhã, esta coisa das caraças e do mau olhado, tenha ela origem nos celtas ou no raio que o parta. Mas o que mais me irrita é fazerem de arremesso as lágrimas desiludidas dos nossos filhos, quando estoicamente lhes tentamos explicar aquilo que já não é possível.
É altura das comunidades portuguesas nos EUA, paulatinamente, irem instaurando nos seus círculos o “dia da Nossa Senhora de Fátima”, assim mesmo, sem tradução. Que se faça lobbie com o pequeno comércio de Newark, mas que se não resfolegue até ao dia em que este será um feriado nacional nos EUA, quiçá em todo o mundo anglófono.
Portugueses, uni-vos ! Contra os hamburgers, feijoada ! feijoaaaada
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:18 AM | Comentários (2)
outubro 28, 2004
O barulho do desperdício
Pling-pling, pling-pling
A chuva tem o ritmo do sono, que perversa sedução. Finco-me no volante. Ela monótona, brincando com as minhas pálpebras.
Tac-Tac, Tac- Tac
O limpa-pára-brisas sem parar a viagem toda. Falso aliado - junta-se ao ritmo. Foge a estrada, esconde-se a concentração. Esticam-se os olhos sobre aquelas duas rectas.
Flccc-Flccc
O carro a engolir a estrada, imperturbável, já sem mim. Os traços brancos acompanham-no. Também as árvores, o mundo inteiro rola no mesmo compasso. Há que parar numa bomba de comida. Ou será num snack de gasolina ?
Vrum-hiii, Vrum-hiii
Filas intermináveis a serem mastigadas por impropérios do motor, ele arfando, o travão acautelando. O cheiro a metal arreliado, e o “vai tu” de quem desespera.
Psst-Pstt, Psst-Pstt
As notícias em espiral, ora Marcelo ora Pais do Amaral. Novo comentador, as mesmas coisas, mastigadas, justificando-se, copiando-se, fazendo-nos iguais ao que já fomos ontem.
Ai-ai, Ai-ai
Estarei a ficar autista, ou são apenas os sons dos minutos a serem esvaziados ? Será este o barulho do desperdício?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:43 PM | Comentários (4)
outubro 27, 2004
Fez-se Luz
Ena, este maçarico já consegue editar imagens e tudo !!!

Publicado por Eufigénio Lagoa às 07:41 PM | Comentários (3)
7 candeeiros e 3 toalheiros
É bom poder ajudar
Mas faz-me doer as costas ... Porra !!!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:17 AM
outubro 26, 2004
Eu tenho um outro Blog,
… que todos os dias se “posta” sozinho.
No sábado foi um torneio de “rugby” dos miúdos, vê-los a começarem antes de mim, recordar-me, saber-lhes o prazer que tirarão, sentir-lhes o entranhar-se do verdadeiro espírito desportivo, orgulhoso, eles a crescerem bem.
No domingo um almoço de família, a toalha ajeitada á moda antiga, os copos do casamento de pó lavados, tudo em jeito de cumplicidade, aproximando-nos em novos desígnios, um bom vinho e o futuro traçando-se, melhor não podia vestir o dia santo.
Na segunda ao amor voltei a pedir-me, empurro-me para fora dos meus círculos viciosos, consegui, não desiludo, não me desiludo, e por isso me estranho, mérito dela, aquilo que me deu, aquilo que faz de mim.
Eu tenho um outro blog. Passo pelos dias ansiando por o abrir.
Hoje estou desejoso de saber que post tenho á espera,
quando chegar a casa.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:41 PM | Comentários (4)
outubro 25, 2004
A Estatística e o Ego
Primeiro criei o blog, em jeito de brincadeira, e acabei viciado em visitá-lo (pena que ninguém o possa escrever fingindo-se de mim). Depois encontrei o “sitemeter” e vi-me fanático das estatísticas. Esta disfunção enquanto autor do blog, leva-me a um ponto tão exacerbado que deixam de me ser relevante as visitas, mas tão somente o contador que elas acrescentam, sendo este permanentemente monitorizado por mim (estou até a pensar tirar férias para o poder observar em tempo real).
Noto-lhe um comportamento sinusoidal (á curva de visitas), apesar de ainda imaturo. Constato-lhe de 3 em e dias um ciclo máximo, a que se sucede uma queda acentuada para o número de visitas mínimo, e depois upa, volta a subir numa derivada bem acentuada. O último mínimo foi de 6 visitas, o de hoje apenas alcança as 3. Dado que os valores máximos se equivalem, isto significa uma curva mediana, atenuada, que apresenta uma tangente negativa, do que resulta uma convergência para 0 (visitas) – por inépcia e receio ainda não extrapolei essa fatídica data..
Venho assim solicitar-vos (neste caso agradecer pois como é óbvio já lêem este post na condição de visitantes) o favor da vossa visita, por forma a inverter a tendência dramática da curva de visitas.
Espero sinceramente que não se sintam melindrados, ou alvos de um embuste, pois reafirmo que este pedido se deveu apenas a um interesse de ajustamento estatístico. Em jeito de desculpa relevo que este post me exigiu muito mais do que a simples colocação de fotos, links, tiradas literárias ou anedotas.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:26 PM | Comentários (12)
" Portugal ...
... foi a rapaziada que se conseguiu arranjar."
Ramalho Ortigão
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:15 AM
outubro 23, 2004
O Estreloscópio
Post colocado por mérito de uma sobrinha deliciosa, de um filho desarmante e de todas as crianças que nós tantas vezes não somos capazes de ouvir:
- No Natal posso receber um estreloscópio ?
- Humm, um estreloscópio ? Não será um telescópio ?
- Não, não. Eu só quero ver as estrelas. Eu só quero saber se há estrelas que cheguem para todos nós, quando morrermos.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:00 PM
Um afortunado Lisboeta
Num dia comum, saído do emprego, encontrei por mero acaso a casa onde passei a viver. Era a casa dos meus sonhos, velha, generosa e rústica, cheia do rio Tejo, dos tons da tarde de Lisboa e do ranger das gruas de que se vislumbra ainda o pescoço brioso lá para os lados do porto. Mas a sua maior particularidade era o facto de distar exactamente um quilómetro do meu emprego.
Porventura nem conseguirão conceber o que é sair de casa, sem carteira, apenas as chaves tilintando distraidamente no bolso, as mãos baloiçando desajeitadas de nada se verem incumbidas, e partir, caminhando apenas. Nem sequer me ocorre já o habitual e hesitante pensamento do “será que me esqueci de alguma coisa?” antes de fechar completamente a porta. Não, saio apenas caminhando.
Depois é ver-me viciado pela trilha de todos os dias. Desço a rua ladeando os muros da manutenção militar. Vejo-lhe por detrás das janelas reticuladas o rio da manhã, e pressinto os barulhos mecânicos dos afazeres no porto. Passo ao lado dos bombeiros, e por lá os encontro sempre, mitigando o ócio, sentados no banquinho vermelho que colocam ao comprido no passeio. Logo depois da primeira esquina compro o jornal e as cigarrilhas na tabacaria do presidente dos bombeiros. Além disso, é homem que também se desenrasca no arranjo dos relógios do bairro. Enfadado, ostentando com orgulho a sua luneta, lá me vai permitindo a interrupção em troca de coisas menores.
E a meio caminho me fico um pouco, bebendo a bica no café do sr. João, mesmo do outro lado da rua, onde invariavelmente encontro a Srª Doutora da farmácia do lado – “então continua sem fumar ? ajudaram as pastilhas?” – enfim, de pouco custa esconder a mão, e o rubor.
É por ali que acordo completamente, e por ali reinício a jornada. Passo agora em frente ao talho e às duas mercearias que concorrem ao fim do dia para guardarem em papel de embrulho e laçadas antigas as coisas que esqueci de comprar ontem. E também ambas disputam a idade e a mesma traça - as portas forradas de fruta e ao fundo, na sombra, os tampos de mármore manchados do roxo acre dos copos de três por ali pousados. Sigo então pelo jardim do Beato e deixo-me passar distraído por baixo daquelas 3 enormes acácias. Pouco depois, cheio de Lisboa, entro a cantarolar pelo trabalho adentro.
Todos os dias é assim que viajo. O meu ir e vir tornou-se de repente numa das melhores coisas do dia. Aos outros vejo-os cedendo em horas de trabalho a fuga ao trânsito do fim do dia. Eles ficando-se, eu desenhando os meus passos desde o convento do grilo onde deixo a minha casa de manhã, até pouco depois do convento do beato de onde a ela retorno. Olho-os chegando e partindo, trazendo consigo o cheiro a escape e o barulho das arrelias, e é aí que ganho consciência: sou seguramente um afortunado Lisboeta.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:42 AM | Comentários (1)
outubro 21, 2004
Afinal que estou eu aqui a fazer ?
Acabrunho-me de não ser capaz de comentar a política. E não o sou porque não tenho paciência nem disposição para acompanhar diariamente os seus episódios novelescos. Nem vejo qualquer interesse nisso. E não sou porque de há anos que estou suficientemente desencantado com os (actores deste) mundo para a querer criticar numa perspectiva mais elevada, quase arrisco dizer, mais filosófica. À “acção” política constato-a da comunicação social e nada mais. À “ideia” política apraz-me discuti-la por entre um copo digestivo, depois de um bom almoço, com um amigo inteligente … mas nada mais.
Mas ainda tenho o futebol. O futebol ? Mas eu recuso simplesmente divagar pelo futebol causídico, o futebol que se escreve. Apenas o consigo ver, ao futebol. Sou absolutamente inapto nos seus círculos de discussão, sou até incapaz de defender o golo que “foi mas não foi” contra o meu clube. Gosto apenas de apreciar a sua acção desportiva, e quando muito discutir um lance de contra-ataque, um passe de magia, uma jogada de génio, e vá lá, a injustiça do resultado. Mas nada mais também. Pior que isso, apenas me consigo entusiasmar moderadamente, nada que vá para além dos momentos seguintes. Nunca me senti intelectualmente apetrechado para argumentar tecnicamente, ou recorrer a factos históricos, nem tão pouco concebo a utilidade disso enquanto espectador.
…
Divago pelos Blogs, uso até das listas do “weblog” para me orientar para as útlimas novidades, e invisto sobre os blogs que aí são apontados (poupo-vos aos links). Entro e saio, entro e saio e … acabo perguntando-me (eu que ainda agora "aqui" cheguei): Afinal, que estou eu aqui a fazer ?
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:25 PM | Comentários (3)
Ruy Belo, Boca Bilingue
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transistor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fonte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:07 AM
outubro 20, 2004
Curioso ...
Este Blog que começa assim:
“Não sei que espaço é este e ocupo-o sem nenhum anseio particular de esclarecer a questão. Imagino que passarei a vir aqui com frequência. Não porque se trate de um diário. Apenas porque tenho um certo hábito de escrita. Nunca escrevi diários e não sei para que poderia servir-me um. Mas escrevo. Não desta forma, ou pelo menos, não aqui. Por razões que não vêm ao caso, preciso de me transferir do papel para cá. Talvez porque precise de convocar a escrita a um só e mesmo lugar. Eu não sei. Sei que passei a vir escrever para aqui. Despejo coisas escritas.... agora... antes....há tempos atrás... Algumas dessas coisas sei quando foram escritas, outras nem por isso. Mudei-me para cá e não penso sequer que rumo dar a este espaço. Sei só que me agrada tê-lo. Saber dele. Saber onde está. Saber onde fica quando o deixo. Mais nada! Pelo menos agora. Pelo menos para já. “
Tão nascido da mesma forma que me apetecia apropriar do seu post.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:15 PM
O Sol
Tarde de Verão, férias. É para estes dias cinzentos que as guardo. Doseio-as com rigor somítico. Hoje junto ao café uma conversa rasgadinha com os miúdos. Coisas indeléveis que chegam quase sempre sem avisar, normalmente trazidas por eles. É preciso estar atento. Deixá-los falar do que sabem melhor do que nós, ainda.
D... – louro, comedido com as ideias, é definitivamente um fazedor
- Oh Pai, de onde vem este escuro que nos tira o quentinho do Sol ?
Eu
- É a sombra das nuvens D... Quando estamos na sombra olhem sempre para onde está o Sol. A nuvem que o tapa, é sempre a nuvem que nos faz sombra.
D...
- Não é não, é aquela ali. É a maior.
F... - alto e esguio, quando dispara quase nunca o consigo acompanhar
- Não D..., é aquela mais brilhante, ali ... Estás a ver ? Ou achas que era outro Sol ? Na nossa realidade só temos um Sol!
Eu
- Pois, só na realidade dos sonhos há mundos com dois sois , não é F... ?
F...
- Oh Pai, na realidade do Universo há muitos sóis, e deve haver planetas com dois sóis.
Eu
- Isso é verdade F..., aliás, a maior parte dos mundos tem dois sóis, sabias ?
- Mas essas são realidades que estão longe, o nosso mundo tem só um por exemplo.
D...
- Não não pai ... nós temos dois sois!
- O Sol cor de laranja quando é quase noite, e o amarelo quentinho quando não há sombras.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 10:48 AM
outubro 18, 2004
Faetonte
Sempre me fascinou o Faetonte (desculparão a versão brasileira). Ele está associado ao Complexo da obsessão por (mostrar) poder - queria provar a todo o custo que era filho de Hélio, pois ninguém acreditava nele. Foi por isso que arriscou conduzir a quadriga de fogo, o que lhe foi fatal.
Agrada-me a ideia de ele ter sido um deus imperfeito, muito mais próximo dos homens (pela ambição e pelo erro, ou pelo erro da ambição) do que do Olimpo. E entusiasma-me pensar que ele representa aqueles que um dia romperam com tudo e partiram abrasando o Universo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 03:45 PM | Comentários (3)
Os meu mortos
Houve alguns dos meus mortos que se foram esfumando, e transformaram-se aos poucos numa nostálgica e longínqua recordação, cada vez mais deturpada com partes de mim. Eu tentando-os recuperar com o que eles deveriam ser mas já não eram.
Mas houve outros em que as memórias não se desvaneceram, não eram etéreas e solutas. Mais do que as suas memórias, foram eles que me entranharam. Esta dor brutal, gritando uma explicação que nunca virá, era afinal um processo de regeneração, enquanto eles passavam para dentro de mim. É aí, dentro de nós, não pelas recordações que deles guardamos, mas pelo que passamos despercebidamente a ser deles, que as almas daqueles que nos tocam verdadeiramente na vida, passam a viver.
Esses são os meus mortos. E é assim que agora nós vamos caminhando pelo mundo. Um dia virá que passaremos este testemunho a outros. Tudo o que vamos fazendo, e deixando, afinal é apenas isso, ir ajeitando o “lugar” onde mais tarde continuaremos a viver.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 12:09 PM | Comentários (3)
outubro 16, 2004
O princípio do fim d'semana
Creio que foi o Oscar Wilde que disse,
mas nem sei se exactamente assim:
" Hoje trabalhei imenso.
De manhã pus uma vírgula num poema,
Á tarde voltei a tirá-la "
Publicado por Eufigénio Lagoa às 02:10 AM | Comentários (2)
outubro 15, 2004
Mau acordar – ou a história de um ciclo dramático
Todos os dias me deito cansado, gasto, falido de esforço.
E isto porque quando acordo sou invariavelmente uma besta! Nesses 15 minutos fatais vocifero, lanço impropérios contra opiniões que ninguém produziu, rebato com argumentos lamentáveis as perguntas que ninguém formulou, insinuo. Sou abjecto para com ela e os miúdos.
Quando finalmente recupero a minha humanidade eles já se foram para o dia deles. As horas comuns passo-as num reboliço: às coisas que cumprem o meu dia junto as investidas para procurar resolver os disparates que fiz e disse ao acordar. Tento ressarcir-me dessas primeiras horas. Por vezes consigo-o.
Depois chega a noite que me traz outra vez cansado. A consciência apoquenta-me o sono. Acabo desfolhando as horas no sofá, apático, fugindo daquele impulso que me levará de novo para a cama, inquietado pelo novo despertar que se lhe seguirá.
Mas cedo ao sono, combalido e remediado das asneiras que fiz naquela manhã. Preciso de dormir bem. Espera-me a prorrogação de todos os dias. Amanhã vou ter de passar o dia a resolver os absurdos que pela matina irei deitar ao mundo.
Publicado por Eufigénio Lagoa às 11:35 AM | Comentários (1)
outubro 13, 2004
São grandes as saudades dele ...
- Mas se não precisa dos óculos para comer,
porque insiste em trazê-los para jantar?
- Precisar não preciso de facto,
mas é que a comida fica mais bonita!
Publicado por Eufigénio Lagoa às 06:14 PM | Comentários (2)
Arrumando papéis ...
Mudei de gabinete. Aproximei-me do Sol. Como perdi o hábito de o arrumar antes das férias, deparo comigo organizando papéis. Um sincero esforço de renovação, até porque nesta nova versão do gabinete já nem tão pouco eles cabem. A alguns tiro-lhes o pó de cima, a outros mudo-os de sítio por mais uns anos, a outros ainda assassino-os com impressionante facilidade no caixote do lixo.
Fico impressionado com tanto papel coleccionado. É ver quantos cadáveres de papeis bóiam à tona do cesto de papeis, quantas ideias voluntariosas de outrora formam pregas nas quinas do caixote, e quantos projectos se espraiam em folhas amarrotadas pelo chão ! Todos eles foram importantes na altura, - todos metodicamente etiquetados, para o dia em que pudessem ser precisos - e assim foram guardados. Agora, já nada me dizem. À medida que os destapo da sombra destes anos vou-os vendo riscados de letras e cruzados de ideias como no dia em que nasceram. Imperecíveis, despropositados e sinceros, nem os reconheço. Certamente sou eu que devo ter mudado.
Enfim, todas as coisas têm o seu próprio sentido de existência. Os papéis que vamos juntando, provavelmente servirão como um sombrio arquivo daquilo que já fomos. Talvez assim se justifique que os vamos coleccionando sem saber verdadeiramente porquê.
Revejo-me em cada um deles a interrogar-me sobre o que escrevia, e porque o fazia. Esta mania de deixar que a escrita diga o que eu normalmente calo é inusitada, injustificável e estranha-me.
Mais uma resma na mão enquanto procuro um novo lugar ou destino a dar-lhe a tanto bafio. Devo ser um coleccionista de coisas que não são precisas. Devo ser depois um rasgador de coisas com valor. As mesmas coisas. Fica o remorso e a displicência com que as rasgo agora. Será esta uma forma de se ser sentimental? Este sombrio vício de guardar papeis preciosos que um dia distante, incautamente, rasgarei e amontoarei sem dó num qualquer caixote de lixo, aliviando-os da eterna clausura a que os devotei.
Continuo a reflectir sobre este hábito burocrata. De facto, nós quando crescemos vamos juntando novas memórias, e para isso vamos involuntariamente apagando outras. Deve ser por isso que nunca seremos a soma de tudo o que já fomos no passado. Mas com os papéis não se passa o mesmo, eles são bem menos voláteis que nós. O que são perdura e é acumulável. Tudo o que lemos, tudo o que escrevemos, pode ser sobreposto folha após folha, resma sobre resma. O nosso passado pode em grande parte fazer-se lido dos papéis que escrevemos e guardamos, pode até fingir-se mensurável. Curiosamente o mesmo não acontece connosco, seus autores. Quando os arrumamos, aos papéis, em gavetas, caixotes e prateleiras, com desproporcionado zelo, temos de alguma forma consciência disso. Assim como, quando anos depois, como hoje o faço, os destruímos sem qualquer pejo, o fazemos um pouco acanhadamente, de sabermos inutilizar tão definitivamente algo do que já fomos.
A dois metros de mim, um electricista e o seu canino mestre de obras gritam opiniões sobre o quadro de electricidade; à direita está um possível ucraniano pintando a parede com eficiência desusada por estes sítios, enquanto um homem novo já esperando a reforma, a seu lado, o olha com ar vazado e tão despojado de interesse que sou levado a concluir que seja o seu chefe. Em redor de cada um destes ruidosos obreiros conto dois escadotes, várias trinchas, os baldes de tinta, pontas cortadas de cabos eléctricos e toda uma panóplia de dossiers meus, que outrora tiveram prateleiras que os acomodassem. E pó, muito pó decadente. É determinante não trabalhar, estas condições. Continuo por isso nas arrumações...
Uns papeis mudo-os de dossier até que daqui a 5 anos, um crivo mais rigoroso os meta definitivamente para o caixote do lixo; outros passo-os a colaboradores meus, julgando que estes são apenas cópias imprecisas e atrasadas no tempo, do que eu já fui; outros, talvez os mais importantes por isso, não lhes encontro razão de terem sido guardados e rasgo-os. Estes últimos, deixam-me uma enorme vontade de os querer levar comigo, para onde não sei? como não sei? acho que esperaria que eles entrassem cá dentro e ficassem fazendo parte de uma espécie de “folheto” de mim mesmo. Mas, sei lá eu fazer isso!
Feliz agora, eu. É meio da tarde e eles começam a arrumar as coisas que levaram a outra metade do dia a desarrumar. E eu dei uso a um catálogo de uma marca alemã que há 10 anos tive o trabalho de recolher, guardar, não esquecer no hotel, transportar no avião, trazer para o gabinete, e arrumar num dossier. Que bom é poder dar sentido ás coisas que no passado guardámos para desfrutar no futuro. Estou francamente satisfeito. Hoje, quando rasguei todas estas resmas do que já fui, e de tudo quanto guardei, consegui dar sentido a pelo menos 5 linhas de um catálogo de automóveis.
Apesar do cheiro a tinta, apesar de ter amontoado um rol de coisas que devia ter feito hoje, satisfaz-me a sensação de que um canto deste gabinete ficou agora mais arrumado. Amanhã vou poder trabalhar melhor …
Publicado por Eufigénio Lagoa às 05:59 PM
Fui ...
As paredes do tempo
esboroam-se
depois estáticas
quedam-se
amontoadas
num escolho parado.
A esteira do mundo
borbulha
em espuma de espanto
desacelera a massa enorme,
e rotunda e morta,
acaba por estancar.
A realidade incrédula
engole-se a si mesma
num turbilhão,
confunde-se de sonhos,
depois nem isso,
nada apenas
As coisas
que fizemos
inelutáveis
deambulam fossilizadas
na velocidade
de um meteoro perdido
Eu parto
E tudo o resto,
tão incrivelmente importante
Afinal morre
A ordem
desordena-se
num estertor
que acaba por finar
em zumbido
calado.
A beleza
envergonha-se
e sem quem a acaricie
esconde-se
com riscos
gritados
A lembrança
esmorece
vai fugindo,
cada vez mais vaga,
ao fundo,
foi
E o amor
enlouquece,
até ele, traindo-se
vendo-se sozinho
de negro escondido
se tinge
Uma chave range
cerra-se a sala
desmazelada
da ébria festa
que súbita
acabou
E fui
deixando a incerteza
se no que foi
fui
Publicado por Eufigénio Lagoa às 01:37 PM | Comentários (1)